Hoje é a minha entrée neste excitante mundo da crítica de vinhos. E como a primeira vez a gente nunca esquece, escolhi uma marca com um certo recato, que inclusive traz um toque familiar (pelo menos para mim): Monte dos Cabaços.
Feito de uvas frescas, é uma casta alentejana que vai se tornando cada vez mais difícil de encontrar. Aliás, fica uma recomendação para os fabricantes: se pensassem o marketing mais a sério, eles chegariam à conclusão de que seria uma boa ideia criar uma extensão da marca.
Montes de Cabaços é uma coisa de outros tempos. Há pessoas que nunca tenham visto sequer um. Porque hoje são sinônimo de raridade e talvez existam apenas às dezenas ou, numa hipótese mais generosa, às centenas. Ora, “centenas” permite uma sugestão: Cem Cabaços seria um nome muito mais comercial.
Jovem, vivaz e com um bom corpo, Cabaços deve permanecer guardado por muito tempo. Saboreá-lo é uma experiência intensa e sedutora, que exige momentos de lentidão. Deitar e deixar repousar na horizontal. Esperar até encontrar a temperatura ideal. E só então tirar o selo.
É preciso ter muita atenção ao introduzir o saca-rolhas… fazê-lo de maneira gentil, para manter as características aveludadas. E as suas qualidades, como o aroma, melhoram algum tempo depois da abertura.
Quando vir o líquido vermelho de Cabaços a escorrer, vai perceber a agradável sensação da abertura de caminho, da descoberta, do valor de penetrar num mundo inóspito, cheio de prazeres reservados apenas para poucos.
Por ser feito a partir de uma casta de uvas virgens, Cabaços tem um aroma por vezes ácido, mas mesmo assim mantém um caráter sensual. Aliás, quando tirar um Cabaços e experimentar esses novos prazeres, você vai entender o verdadeiro significado da palavra “casta”.
Ah… e o final de boca é longo e sempre perfeito.

Que texto genial do amigo José António Baço!
Precioso.
Espetacular!
Para quem curte esse tipo de “crítica”, Sexo e Vinho, de outro brilhante cronista: http://winefinezone.blogspot.com.br/2011/10/sexo-e-vinho.html