O gostoso da vida é a gente que faz

Admito, sou um cara de sorte. Ter casado com uma mulher que, entre muitas outras virtudes, também sabe encantar à mesa, tanto com delícias simples como cachorro-quente (o Guilherme Gassenferth que o diga) até com obras-primas culinárias mais elaboradas, influenciou e muito essa minha vida gastronômica. Noite dessas foi mais um caso desses. Com toda maestria que lhe é peculiar, criou uma receita de pappardelle que leva vieiras e camarões salteados, temperados com um leve toque de manjericão e alecrim. Os convivas, primos Edson e Cris aprovaram na hora e eu como sou suspeito resolvi guardar minha opinião para publicar só hoje aqui no blog: fantástico!

Pena que não dá pra postar o cheirinho do camarão na panela :-P

Belas vieiras adquiridas na Sea Store, aqui de Joinville

O resultado final. A fotografia não tá lá essas coisas, mas o sabor…

Para acompanhar, um Moscatel Nobrese catarinense da Sanjo para abrir os trabalhos. Seguido por dois belos brancos, um Gran Tarapacá Chardonnay Reserva 2009 e um surpreendente Sauvignon Blanc chileno, o Dogma Reserve 2010!

Moscatel catarinense, as mulheres adoraram

Um clássico sul americano, sinônimo de qualidade

A surpresa da noite, um vinhaço branco dica dos amigos da Adega Di Bacco

A harmonização foi perfeita, só faltava encerrar com chave de ouro, nesse caso com uma sobremesa que não fizesse feio ao que foi apresentado à mesa. E quem se encarregou da tarefa foi esse que vos escreve. Servi goiaba vermelha em conserva com sorvete de creme e um toque de redução de aceto balsâmico. Quase roubei a cena, mas no fim os aplausos foram pelo conjunto e não pela individualidade dos pratos.

Inventei uma sobremesa e não é que deu certo?

Mais uma noite de boa comida, boa bebida e bons amigos. Obrigado, Dona Simone Setter por tornar a nossa vida muito mais gostosa.

Çobo Keshmer, um vinho albanês surpreendente

Quando a gente pensa que tá começando a entender um pouquinho do mundo do vinho, aparece um tinto albanês e nos joga lá pro início de novo! Foi assim nesse Domingo, quando em um almoço na casa do meu pai, daqueles churrascos que ele gosta de fazer, que degustamos um vinho inusitado: um tinto albanês chamado Çobo Keshmer. Esse tipo de aventura só é possível por causa do internacional Jordi Castan, amigo catalão-brasileiro (e espanhol quando a Fúria joga e ganha) que sempre lembra de trazer um vinho diferente de cada canto do mundo que ele visita. Foi por causa dele que descobri o maravilhoso vinho peruano, por exemplo.

Berat, a cidade do vinho albanês

Voltando ao albanês: ele é produzido na cidade Berat (foto acima) patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, que fica encravada em umas colinas, a cerca de 130 km sul da capital Tirana. A família Çobo, que significa literalmente “vinicultores” em albanês, se vangloria de uma tradição centenária na produção de vinhos finos, 100% realizada em suas propriedades nessa região. No site tem um video todo elegante que destila nas imagens o orgulho do pessoal em relação ao terroir e produto., inclusive pelo que pude perceber, com citações e testemunhais de poetas e estadistas como Romano Prodi.

Um vinho albanês. E sim, muito bom!

Na mesa para acompanhar esse presente sem igual que nos proporcionou Jordi, eu e meu pai começamos com uma linguiça de presunto Jamón, uma iguaria catalã lá das terras do amigo Castan. Com uma capa de pimenta, serviu para deixar alerta nosso paladar para o vinho que, pela composição de seu blend que leva Cabernet, Merlot e a variedade local Shesh i Zi, pedia comidas ricas em especiarias e claro, assados de carnes de sabor bem marcantes.

Linguiça de presunto Jamon com pimenta, marca Josep Llorens

A tal carne de sabor marcante e condimentada que viria ser o par perfeito para nosso vinho, estava sendo preparada na grelha. Uma bela perna de carneiro, temperada com 24 horas de antecedência pelo seu Irineu, meu pai. Uma delícia que fez o vinho crescer e se desenvolver à mesa, trazendo lembranças dos bons vinhos piemonteses que bebíamos aos pés dos Alpes, em 1997. Foi uma opinião comum e uma das poucas vezes que eu e meu velho concordamos em algo de primeira :-)

Perna de carneiro bem temperada, espetacular

Ah… esse mundo do vinho. A gente se prende às vezes, em sua geografia restrita a uma dúzia de países, mas graças aos amigos, graças às mentes abertas que buscam o novo sem se contentar com a rotina, podemos descobrir coisas inéditas e surpreendentemente deliciosas. Um brinde a esse mundo maravilhoso, um brinde aos vinhos de países fora do mainstream. Um brinde à vida e aos amigos!

Joinville e a Era do Vinho

Amigos de Baco, regozijai-vos! Joinville vem vivendo um momento especial no que se refere à enogastronomia. Mesmo que as cidades aqui do Sul do Brasil, especialmente as de colonização germânica como a nossa, ainda sejam lembradas pelas suas louras geladas, as taças de vinho vêm ocupando um espaço cada vez mais interessante às mesas. Excelentes opções em restaurantes e bares e praticamente todos eles oferecendo cartas de vinhos de qualidade. Até lugares que tradicionalmente o vinho não seria a opção principal de bebida, estão dando atenção a ele, com adegas climatizadas recheadas de belíssimos rótulos. A Choperia Biergarten por exemplo. Apesar de literalmente se chamar “Jardim da Cerveja” em alemão, tem na casa excelentes vinhos que harmonizam super bem com os pratos de sua cozinha. Bares mais espartanos estão igualmente se movimentando para agradar seus clientes enófilos, vide o Capim Teimoso do amigo Ronan. Obviamente temos restaurantes que nasceram para o vinho como o DOC, o recém reaberto Bistrot Mamma Lu e sua maravilhosa adega, Veneza Cucina Italiana e o Poco Tapas, só para citar os que mais se dedicam ao culto enogastronômico e que apresentam uma gama de jóias de tintos, brancos e espumantes que agrada em cheio os mais exigentes. As lojas são um capítulo a parte, ninguém pode reclamar de falta de opção quando o assunto é vinho. A De Marseille da famíla Cadorin, com 2 lojas na cidade, a di Bacco do amigo Mario prestes a inaugurar sua nova adega na Otto Boehm, a Top Wine, a Brothaus e a Adega Maximiliano formam um time campeão, que está profissionalizando e promovendo o mercado para nossa grande satisfação. Prova disso é que no dia 21 de abril aconteceu uma mega degustação de 20 produtores portugueses, somando mais de 140 rótulos, para mais de 300 convidados organizado pela Di Bacco. Coisa de gente grande! Essa espécie de “renascimento” que estamos presenciando é muito graças ao esforço incrível de profissionais que literalmente ganham a vida com o vinho. Caso da Adri Wiest, uma das maiores autoridades em enogastronomia de nosso estado, do sommelier Volnei Bastos, do sr. Vicente que inaugurou o belíssimo Espaço Gourmet Escola de Gastronomia, dos chefs de cozinha que estão sendo cada vez mais evangelizadores da boa harmonização enológica, entre eles o Fabio Espinosa, comandante das panelas mais bacanas de Joinville. São verdadeiros apaixonados, formando um grupo (no qual posso me incluir) que não mede esforços em participar de encontros, promover degustações, organizar confrarias e divulgar por meio de redes sociais, blogs, mídia on e offline o prazer resgatado de uma boa mesa, desmistificando a complexidade e elitismo velados, simplificando e aproximando o que parecia inatingível para a maioria das pessoas. Comida boa, bem elaborada, acompanhada de um bom vinho não é mais privilégio justamente por causa dessa turma toda. Pode ser nas mesas de um restaurante fino, de uma choperia ou de um bar. E mesmo em casa, por que não? É lindo ver o vinho vivendo esta era super bacana, apesar de ameaças sombrias de uma manobra de salvaguarda do produto nacional, orquestrada por associações e grandes produtores brasileiros. Agora, amigos, é esperar os próximos capítulos dessa bela e prazerosa história, que pode ser acompanhada de perto por todos nós, com uma taça na mão e muitas opções à mesa.

Papos & Vinhos 1ª Edição

Como é difícil, quase impossível, derrubar o mito de que bons vinhos só vão bem acompanhados de pratos sofisticados. E vice e versa…
A não ser quando você tem a sorte de contar com ótimos amigos dispostos a compartilhar (também) ótimas estórias.
E assim foi o caso da última noite de quinta-feira, dia 9 de fevereiro, quando uma mescla de conversa descontraída, bate-papo animado, lendas urbanas, causos inusitados e até mesmo anedotas épicas, fizeram parte da mesa e formaram a combinação perfeita para uma degustação pra lá de divertida, roubando dos geniais e deliciosos aperitivos presentes, o papel de principais acompanhamentos para os vinhos super especiais que foram degustados.
Na presença dos amigos João Francisco, Marco Deretti, Daniel Piazera, Ely Diniz e sua esposa Rose, e o formidável anfitrião Jordi Castan, os trabalhos foram abertos lamentando a ausência do mentor do Papos & Vinhos, o caro José Antonio Baço. O nosso “gajo” teve sua presença comprometida e literalmente levada àgua abaixo pelas fortíssimas chuvas que castigaram a cidade momentos antes.

Água à parte, a seleção de vinhos foi realmente especial. Cada um dos convivas levou uma garrafa, que após um debate animado, foram organizadas numa sequência para serem devidamente degustadas. Como o objetivo desse post é falar sobre o momento, sobre o festim, vou poupar os amigos dos detalhes técnicos de cada vinho, deixando apenas a ressalva importante que foram tintos excelentes e que absolutamente todos sem excessão, de alguma maneira e por algum atributo específico, encantaram e geraram mais e mais discussões animadas. Baco está de prova!


Abaixo, segue a ordem das belezuras. E clicando nas fotos o amigo será levado a algum site que possa dar a informação extra sobre o vinho, afinal, não tenho a arrogância nem pretensão de achar que poderia gravar e/ou avaliar de maneira precisa todos os rótulos.
E nem era esse o objetivo do encontro. Ficou apenas a sensação de dever cumprido ao unir, com a benção do ausente Baço e do amigo Jordi, tanta gente boa que além de ser ótima de papo, ser ainda melhor na hora de escolher e beber um bom vinho.

Pra finalizar, fica a lição (para mim!) de que a proposta desse blog é realmente diferente. Quero destacar as experiências, como essa que vivi ao lado de pessoas especiais e que certamente também valorizam, a priori, a amizade, a conversa e só então, a experiência enófila.Que esses vinhos mereciam post especial pra cada um, é verdade. Mas… ainda acho que a grande virtude deles é fazer as pessoas se encontrarem e brindarem à vida. Né?

Amigos Pelo Mundo: Jordi Castan

O paisagista catalão de nascença e brasileiro por adoção, super gente fina e que já foi assunto nesse blog, viaja o mundo e quando está por aqui em Joinville, nos brinda com suas histórias sempre interessantes. Como essa que ele compartilha com os amigos do site:


Vinho e preconceito
Por Jordi Castan

“Por motivos de trabalho viajo a Lima a cada dois ou três meses, escolhi para ficar um hotel tranqüilo na Rua Dos de Mayo, perto dos meus clientes e bem localizado com dezenas de restaurantes perto.  Depois de uma semana excepcionalmente dura, nada mais apropriado que celebrar o bom resultado saindo para jantar. Nesta ocasião a chefe do projeto em que estou trabalhando também estava em Perú e escolhemos um restaurante pequeno, tranqüilo, a poucos metros do hotel e que tem um cardápio pouco pretensioso, mas de excelente qualidade. Chez Philippe, tem um pão excelente e uns patês caseiros indescritíveis.

Felizes e satisfeitos com o resultado dos trabalhos e reuniões realizadas durante a  semana, decidimos nos presentear com um vinho, Na carta de vinhos, argentinos, chilenos e alguns vinhos peruanos, na duvida optamos por um Malbec argentino, correto, mas nada extraordinário. Quando já tínhamos quase concluído o jantar apareceu um dos nossos sócios peruanos para continuar a conversa, como o vinho estava no fim, nos propusemos a pedir outra garrafa do mesmo Malbec.

Com toda a educação que só um limenho poderia ter, nos propôs experimentar um vinho peruano, a nossa expressão nos traiu, como poderíamos trocar um vinho argentino por um peruano? A troca nos parecia inconcebível. Por cortesia ao nosso amigo e ao pais em que tínhamos passado os últimos quinze dias, aceitamos a proposta.

A sua escolha foi um Seleccion Especial de Viña TACAMA, uma excelente combinação de Tannat e de Petit Verdot. Depois de ter degustado o vinho veio a melhor parte, a Viña Tacama pertence desde 1889 a família Olaechea, E foi o proprietário do vinhedo Pedro Olaechea o presidente hoje da SNI (Sociedade Nacional de Industria) o nosso sócio e contraparte no projeto de cooperação que me leva a Peru e outros países de América Latina com tanta freqüência. Não podia imaginar que era com o vinho dele que estávamos encerrando a nossa semana limenha.

Só vou concluir dizendo que desde aquele dia meu preconceito contra o desconhecido diminuiu e que sou apreciador dos bons vinhos peruanos e os do vale do Ica estão entre os melhores.”

Amigos pelo Mundo: Shanya Koffke

Para inaugurar essa nova categoria de nosso blog, segue o relato da amiga Shanya Koffke direto da Alemanha, onde em sua comemoração de 1 ano de casamento ao lado de seu marido Adrianus Obers nos brinda com uma bela cena de um delicioso jantar regado a bons vinhos.

“Semana passada fiquei de escrever para o Alexandre Setter sobre o Federweißer, também conhecido como “Vinho Novo” aqui na Europa, produzido e comercializado (praticamente em todos os supermercados) apenas durante o outono; mas acabei deixando a garrafa resfriar mais um pouco (e o clima aqui também) para isto.

Pois bem, sábado 29 de outubro, em comemoração ao 1st Wedding Anniversary, segui com meu marido até a cidade de Schönwald (localizada no interior da Floresta Negra/Alemanha) para um jantar mais que especial no Hotel & Restaurante Dorer, com o Chef italiano Cerasola.

Passo longe (bem longe) de ser uma “sommelier”, mas fiz questão de anotar algumas sensações sobre os vinhos que lá experimentei sugeridos pelo próprio Chef como acompanhamento do Menu que ele nos ofereceu na ocasião, e agora estou aqui para compartilhar no blog Veni, Vidi, Vinho:

Como aperitivo, fui apresentada ao Crémant d’Alsace: um espumante branco francês da Região Alsácia, que faz fronteira com a Alemanha. Muito delicado o sabor, com um aroma cítrico e notas de florais. Uma coloração amarelo claríssimo, muito refrescante e leve como a maioria dos espumantes. Ótima sugestão para abrir o apetite!

Crémant d’Alsace
Tipo: Branco
Produtor: René Mure
País/Região: França/Alsácia
Uvas: Pinot Blanc
Graduação Alcoólica: 12,5%
Temperatura de Serviço: 7°C
Safra: 2007

Acompanhado da entrada (terrine de fígado de ganso refinado com trufas, bouquet de salada ao molho cumberland e brioche caseiro) veio à mesa o Beerenauslese St. Patrick, Kaiserstuhl, juntamente com uma garrafa de Schwarzwaldsprudel (água com gás da Floresta Negra).
O vinho é um verdadeiro perfume de primavera -­‐ fascinante. Além de uma coloração amarelo dourado e de consistência licorosa (bastante concentrado, o que dá um toque especial) o sabor doce suave de fruta e talvez uma pitada de mel combina muito bem com o álcool, que por sinal é muito sutil ao paladar. Aprovadíssimo!

Beerenauslese St. Patrick
Tipo: Branco
Produtor: Weingut Johner
País/Região: Alemanha/Marienthal
Uvas: Pinot Gris, Pinot Blanc, Chardonnay, Sauvignon Blanc.
Safra: 2004

Como o prato Intermediário (sopa cremosa de lagosta com caudas de lagostim) e o principal (medalhões de filé mignon grelhados com cogumelos porcini em molho de creme de ervas e tagliatelle) fomos agraciados com o Feudo Maccari Nero d’ Avola.Este vinho tem um perfume intenso, elegante e persistente ao olfato; a sua coloração é violeta escuro, o sabor seco e levemente ácido. Aqui poderia se dizer vollmundig, um vinho bastante encorpado. Confesso que neste momento precisei calibrar o teor alcóolico com mais água. Mas o vinho depois combinou muito bem com o Menu.

Feudo Maccari Nero d’ Avola
Tipo: Tinto
Produtor: Nero D Avola
País/Região: Itália/Sicillia
Uvas: 100% Nero d Avola
Graduação Alcoólica: 14%
Temperatura de Serviço: 16°C
Safra: 2007

Para finalizar, a sobremesa (creme de queijo fresco de cabra queimado com zuppa inglese). Eu podia ficar com um expresso ou escolher um Zibärtle. E, claro que, curiosa como sou, preferi o segundo. Não se tratava de um vinho (como o tema aqui), mas sim de um aguardente – o aguardente “10 anos de Floresta Negra”, cristal e doce (sabor de marzipan) com aroma de chocolate e extremamente alcoólico – 45%. Nem preciso dizer que voltei para casa quase levitando; mas a experiência, a comemoração, a companhia e todos os sabores vivenciados valeram muito a pena!

E sem ressaca no domingo.”