Harmonizando os Sabores de Joinville

Pode ser culpa dos dias em que esse texto foi escrito. Vésperas de eleição para prefeito, o amor à cidade sendo exaltado por todos, seja pelos candidatos, que de repente acham Joinville o melhor lugar do mundo porém, repleta de defeitos que só eles sabem resolver, ou seja pelo simples cidadão preocupado com o rumo das coisas. Mas o fato é que por esses dias se falou tanto na cidade que foi inevitável resgatarmos em nossos pensamentos a Joinville ideal de cada um de nós, a Joinville bela e pacata que marcou nossa infância ou a Joinville moderna e justa que projetamos para nossos filhos. Então, por causa desta repentina nostalgia, resolvi escrever sobre 5 hipotéticas harmonizações entre vinhos e pratos de alguns ícones da culinária local. Vamos lá, me acompanhe nesse breve passeio enogastronômico?

Marreco do Hübener
Descendente de alemão ou turista que se preze não pode deixar de degustar o magnífico buffet de comida colonial germânica do restaurante do Hotel Hübener, na Estrada Dona Francisca. Um lugar simples que oferece clássicos como língua ensopada, patê de fígado de marreco, spätzle, pães caseiros, banana frita e, claro, a estrela maior da casa, o marreco com repolho roxo e purê de maçã. E por aqui quando se fala em marreco, já lembramos de cerveja. Mas, na próxima vez, arrisquem abrir um belo Pinot Noir alemão ou austríaco e me contem depois o que vocês acharam.

Alcatra do Indaial
Bem no centro de Joinville, uma família de assadores perpetua a nobre arte de preparar carnes assadas na grelha, com um tempero característico, aquele verdadeiro gostinho de churrasco de igreja. O alcatra, sempre gigante e suculento, é o meu preferido. E como gosto da carne super mal passada, chego a salivar imaginando essa delícia à mesa, ao lado de uma garrafa de Tannat uruguaio ou de um Merlot brasileiro. Um brinde ao melhor que a gastronomia de domingo pode proporcionar. De barriga cheia e levemente embriagados de vinho e alegria, podemos constatar que a vida ainda pode ser simples e muito boa.

Empadas do Jerke
O sabor que “passa de geração a geração desde 1922″ como bem diz o slogan da casa, é algo tipicamente joinvilense. “Mas empadas tem no Brasil inteiro” resmungarão alguns. Não! Igual as do Jerke, só em Joinville. E só no Jerke, claro. Um reduto tradicional, entranhado desde sempre numa das vias mais movimentadas da cidade e que, se os deuses do progresso assim permitirem, ficará lá por todo o sempre. O chopp aqui é referência. Mas, me pergunto fazendo uma careta de moleque arteiro em meus pensamentos, por que não se deliciar com as maravilhosas empadinhas de camarão bebendo um espumante brut? A ideia não me sai da cabeça desde então e informo que estou prestes a experimentar essa harmonização em breve.

Hackepeter do Biergarten
É na choperia alemã por excelência, o Biergarten, que me esbaldo nesse clássico germânico. Carne bovina magra super fresca, crua e moída, temperada por dezenas de especiarias, com um toque de molhos e conhaque e ligada pela gema de um ovo cru… Só quem já experimentou sabe da festa de aromas e sabores que esse prato proporciona. E, mesmo estando em um ambiente de forte influência cervejeira, não foram poucas as vezes que comi o hackepeter acompanhado de uma garrafa de vinho. E quase sempre acabei escolhendo a cepa Shiraz como companheira. Uma excentricidade que me permito, aprovo e compartilho.

Caranguejo em casa
Joinville se esparrama ao longo de uma privilegiada e sempre ameaçada área de manguezais esplendorosos. E os mangues são o habitat natural de uma das iguarias mais apreciadas por aqui, o caranguejo. Cozidos em temperos verdes, propiciam aos glutões uma carne branquinha, saborosa que faz a alegria das noites quentes de verão. Minha mulher Simone é uma fã incondicional. No verão passado, levei umas garrafas de vinho rosé seco catarinense e uma delas, bem geladinha, foi servida e acabou se saindo como par perfeito para esse prato tão peculiar.

Tá aí gente, se vai servir como guia para o amigo leitor, não sei dizer, visto que as opiniões expressas nesse espaço são pessoais, não representando uma verdade absoluta. Afinal, gosto é gosto né? Especialista profissional em harmonizações é minha querida amiga, a super sommelière Adri Wiest. Eu sou apenas um maluco por vinho e comida. Até a próxima edição, se o editor permitir :-)

Scanwiches!

Um ótimo passatempo para nós enófilos é navegar pelo site Scanwiches, que traz belas imagens de sanduíches cortados e escaneados, e imaginar as harmonizações possíveis para cada um deles. Alerta: Proibido para quem está com fome, passível de mordidas na tela do computador.

Harmonizações perigosas: Vinho & Comida Mexicana

As possibilidades de harmonizações perigosas são infinitas quando você tem uma atitude meio “desrespeitosa” em relação aos conceitos pré-estabelecidos pelos enochatos. E numa dessas noites, tive mais uma prova de que diversão, simplicidade, bom papo e uma surpreendente e deliciosa janta preparada por um amigo, podem ser sim mais importantes do que simples convenções gastronômicas elitistas.

Iria ser mais uma noite de sexta-feira dessas, quando o caro Charles Henrique nos convidou para um jantar mexicano, com direito a burritos, tacos, guacamole e fajitas. Incrível! O jovem amigo acertou na mão, com a preciosa ajuda de seus pais Miriam e Raulino, aliás, ambos de uma doçura e ótimos de papo. Uma deliciosa aventura que ficou perfeita para mim, quando abri um vinho espanhol que casou muito bem com a comida hiper condimentada oferecida pelos anfitriões.

O espanhol em questão foi um tinto da Rioja, o Barón Ladrón de Guevara Cosecha 2009, elaborado com as uvas Tempranillo e Graciano. Confesso que no início, ele “brigou” com o Guacamole, mas quando chegamos aos maravilhosos burritos com fajitas, o vinho desempenhou seu papel de harmonizar tudo com muito sabor e elegância. Obviamente, o quitute preparado pelo Charles foi um convite perfeito para que o vinho e seus atributos aparecessem com muita elegância sincera.

O vinho, que compõe o portfolio da Costazzurra, é uma bela escolha, mesmo para os momentos mais inusitados. Afinal, mostrou ser um espanhol versátil que até comida mexicana, e caseira, encarou com maestria. Recomendadíssimo! E aqui vai um obrigado aos amigos Charles, Raulino, Miriam e Luiz Eduardo, foram eles, mais do que o vinho, quem fizeram dessa noite um momento tão especial.