Uma Bebida Casta

Hoje é a minha entrée neste excitante mundo da crítica de vinhos. E como a primeira vez a gente nunca esquece, escolhi uma marca com um certo recato, que inclusive traz um toque familiar (pelo menos para mim): Monte dos Cabaços.
Feito de uvas frescas, é uma casta alentejana que vai se tornando cada vez mais difícil de encontrar. Aliás, fica uma recomendação para os fabricantes: se pensassem o marketing mais a sério, eles chegariam à conclusão de que seria uma boa ideia criar uma extensão da marca.
Montes de Cabaços é uma coisa de outros tempos. Há pessoas que nunca tenham visto sequer um. Porque hoje são sinônimo de raridade e talvez existam apenas às dezenas ou, numa hipótese mais generosa, às centenas. Ora, “centenas” permite uma sugestão: Cem Cabaços seria um nome muito mais comercial.
Jovem, vivaz e com um bom corpo, Cabaços deve permanecer guardado por muito tempo. Saboreá-lo é uma experiência intensa e sedutora, que exige momentos de lentidão. Deitar e deixar repousar na horizontal. Esperar até encontrar a temperatura ideal. E só então tirar o selo.
É preciso ter muita atenção ao introduzir o saca-rolhas… fazê-lo de maneira gentil, para manter as características aveludadas. E as suas qualidades, como o aroma, melhoram algum tempo depois da abertura.
Quando vir o líquido vermelho de Cabaços a escorrer, vai perceber a agradável sensação da abertura de caminho, da descoberta, do valor de penetrar num mundo inóspito, cheio de prazeres reservados apenas para poucos.
Por ser feito a partir de uma casta de uvas virgens, Cabaços tem um aroma por vezes ácido, mas mesmo assim mantém um caráter sensual. Aliás, quando tirar um Cabaços e experimentar esses novos prazeres, você vai entender o verdadeiro significado da palavra “casta”.
Ah… e o final de boca é longo e sempre perfeito.

José António Baço


Doug Pike e ‘Vinhas do Riso’

Mais um cartunista que tem no vinho sua fonte de inspiração. Dessa vez o americano Doug Pike nos brinda com a excelente série ‘Grapes of Laugh‘ um trocadilho com o famoso livro e filme ‘Vinhas da Ira’ ou ‘Grapes of Wrath’ em inglês!

Você acha que ele se engasgou com um crouton? Eu acho que ele só está tentando dizer GEWURZTRAMINER

Eu sabia que você iria adorar o chili, fiz com seu Chateau Latour 1945!

Agora lembrei! Tinto vai com 'caçadores' e o branco com 'pescadores'.

É um Chateau d'Yquem 1967? Eu deixaria como está!

Kevin está sendo particularmente generoso em servir seu Chateau Margaux hoje.

A Pantera Cor de Vinho

Confesso que muitas vezes me arrisco a comprar um vinho pelo simples fato dele me parecer diferente. Acho válido a tentativa de certas vinícolas se destacarem por outros atributos (embalagem, rótulo, conceito, nome, etc) do que apenas pelo produto líquido final.

Afinal, o mercado é ultra competitivo, então deixa a turma tentar aparecer! E foi assim com esse inusitado Bordeaux chamado Pink Panther. Quando criança adorava assistir aos desenhos do felino rosado e ao me deparar com um vinho que traz em seu rótulo esse querido personagem, não pensei 2 vezes: saquei os míseros 16 reais para adquirir esse exemplar do cartoon etílico e levei a Pantera para a casa.

Vinho divertido de se olhar, divertido de se beber. Não esperando nada por esse valor, o Pink Panther cumpriu a sua única função que esperávamos dele: arrancar alguns sorrisos ébrios, seja ao olharmos o rótulo bem humorado, a Pantera Cor de Rosa com Paris ao fundo, seja ao beber um vinho super honesto, que ousou na embalagem para levar à mesa dos amigos de Baco, uma opção boa, bonita e barata.

Observação: fica ainda mais divertido degustando ao som da trilha sonora de Henry Mancini :-)